GR 20 – Travessia da Córsega

GR 20 – Uma outra forma de conhecer a Córsega

Em 2010 visitamos a Córsega de férias para 10 dias de “papo para o ar” na praia. Nessa altura estávamos a recuperar do primeiro grande trail que fizemos – Vuelta al Aneto (100km). Durante a permanência na ilha ficamos curiosos com a quantidade de publicidade acerca de um tal “GR 20”.

Curiosos, fomos investigar e descobrimos que se trata de um percurso de 180 km que atravessa a ilha numa diagonal e que, segundo os especialistas, é o mais difícil da Europa. “Dureza”, “desafio”, “aventura” são adjetivos que gostamos… tínhamos de regressar para faze-lo!

 

No dia 18 de julho de 2014 viajamos para Calenzana (norte) para iniciarmos o trajeto no dia 19.

Era a 1ª vez que iriamos percorrer um GR em autonomia e isso ficou evidenciado pelos inúmeros erros que cometemos, mas que serviram de aprendizagem para as próximas vezes. Quem como nós pratica Trail Running tem a tentação de julgar que uma travessia em autonomia é muito semelhante a uma ultra maratona, no entanto é puro engano. Quando estamos na montanha “sozinhos” temos de ter sempre em consideração todos os possíveis cenários que durante uma prova estão quase sempre salvaguardados pela organização, nomeadamente a segurança, a alimentação, as condições climatéricas…

 

O percurso entre Calanzana e Conca tem 15 refúgios oficiais do Parque Natural que permitem dividir a totalidade da distância em 16 etapas. Por norma os caminheiros fazem 1 etapa por dia.

Os refúgios são pequenas casas, normalmente com uma divisão a servir de cozinha e outra com beliches para a dormida. A decoração e a higiene variavam entre os refúgios, dependendo especialmente do guarda. Houve alguns que pareciam uma casa retirada de um conto de fadas mas também houve outros que infelizmente pareciam saídos de um filme do Kusturica.

 

A parte norte da ilha é mais agreste, com diversas montanhas acima dos 2.000m (ponto mais alto 2.700m – Monte Cinto) e com passagens muito técnicas, algumas vezes protegidas por correntes.

 

Os primeiros dias foram muito difíceis de percorrer, a título de exemplo no 1º fizemos 29kms em mais de 10h e no 2º fizemos 26km em 9h… a andar rápido e a tentar correr sempre que possível (apesar de ser em poucos sítios).

Até chegarmos a Vizzavona (localidade que divide o GR Norte do GR Sul) foi uma constante a utilização das mãos para conseguirmos progredir. Houve inclusive uma etapa (a 4ª de Asco Stagnu a Tighjettu), que passava por 2 autênticas paredes de escalada que tinham de ser feitas com o recurso a cabos de aço. Naquele momento tínhamos a certeza que se nos fugia um dos apoios podia ser o fim… ainda por cima as mochilas que carregávamos com 11kg às costas não ajudavam.

 

Houve 1 dia que ficamos retidos num refúgio desde a hora do almoço por causa de uma tempestade. O vento e a chuva eram tão fortes que obrigaram a parar quase todos os caminheiros. Nós ficamos em Manganu e conhecemos um outro português (Alexandre) que já tinha vindo a caminhar desde a Bélgica até à Hungria antes de percorrer o GR 20.

Naquela 1ª metade não existem acessos rodoviários, nem rede móvel e o sentimento é de total isolamento do mundo, apesar de por vezes nas partes altas avistarmos o mar e algumas praias. É fantástico saber que somos só nós e o monte, mas ao mesmo tempo assustador pensar que se nos acontece alguma coisa estamos completamente indefesos e na melhor das hipóteses dependentes de um helicóptero!

 

 

A partir de Vizzavona o tipo de relevo alterou-se, passando a existir mais trilhos de floresta (autênticos cenários encantados) mantendo-se no entanto os enormes desníveis acumulados.

O percurso termina em Conca (quase no extremo sul). Quando se passa 7 dias no meio do monte, por vezes em condições difíceis, a última etapa é de enorme ansiedade, parecia que os 12 kms nunca mais terminavam, mas no final a sensação é fantástica.

 

Conseguir concluir o GR20 foi para nós um enorme desafio, tanto pela sua beleza e extrema dureza mas também por nos termos superado nas situações mais complicadas, e foram muitas…

Eram 14:30h do dia 25 julho quando chegamos a Conca, depois de 7 dias na montanha, e às 17h já estávamos a esticar a toalha e a dar um mergulho no mar, nada como uma massagem natural para aliviar os pés e as pernas muito doridas.

 

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